Acordo do sono de estar acordado. De olhos fechados vejo o conteúdo do meu quarto. Não sei quem sou… Ah, já me lembro… Sou e sei-me, sem me conhecer por completo. O cérebro humano não é utilizado em todo o seu potencial e eu não sou excepção à regra. Sinto os meus membros e no entanto, desejo sair deles, voar, ver outros mundos. Este corpo é a a âncora do meu navio e no porto permanecerei… Até quando?!... Vozes ecoam pelas paredes, furiosas, uma criança chora, um avião passa, persianas são corridas, uma porta abre-se para logo se voltar a fechar, oiço o meu próprio coração através da almofada e ele bate, bate, bate constantemente, mais devagar, mais depressa, meio termo… Mas nunca pára… Sombras do passado adivinham-se no escuro. Brinquedos de uma criança de outrora numa prateleira cheia de pó, livros de infância, adolescência e velhice, música do antes e do depois do antes.
Bola da (minha) idade, pendurada no armário. Espada de cartolina, forrada a fita que cola, viola no saco preto, sem tocar, sem viver. Tudo isto sou, tudo isto vejo. O que não vejo não encontro, nem sei se quero conhecer. Não temo o que não sei ou não vi ainda. Não sou Homem nesse ponto. De nada tenho medo, só tenho receio do medo que possa vir a ter, se me entregar a ele. Abro os olhos. Uma luz ilumina o meu quarto. A mesma luz é pouco intensa, mas tudo a vista alcança, só com este pequeno foco. Quem sou está aqui, empilhado, arrumado, agrupado ordenada ou desordenadamente, por ordem alfabética ou arbitrária, e eu, deitado na cama, conto estrelas de um céu inexistente, que brilham para mim, neste quarto iluminado… Mas ainda assim escuro!…
Texto realizado para um projecto de escrita para a disciplina de português no 12º ano
07 / V / 2007
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