A chuva continua a cair…
Os dois amantes desapareceram pela rua…
Permaneci sentado no banco, durante minutos, expectante pelo seu regresso, por algo diferente, fora do normal… Mas nada aconteceu…
Eu senti no ar que estava mais para vir. Não podia ser só isto!... Vesti o casaco e fiz-me à chuva…
Caminhei em passos largos, pois o tempo já tinha dado lugar a si mesmo muita vezes…
Pensei: “O que se passou há pouco?... O que foi aquilo?... Quem são aqueles dois que param o tempo?...”
Confesso… Posso não sentir inveja, mas gostava de ter uma relação assim, orientada pelos Elementos, com a bênção da Natureza…
Apressei mais os passos, enquanto a água me escorria pelo rosto… De mãos nos bolsos caminhei pensativo…
Por fim alcancei-os… Não sei durante quanto tempo andei. A última imagem que tive deles, era a que se mantinha, não tinha mudado… Era como se eles tivessem cristalizado o momento. Segui-os mantendo a distância… Os cabelos dela brilhavam, como se fossem o céu escuro cheio de estrelas. Os dele brilhavam como pérolas negras…
Desejei ardentemente estar no lugar dele… Só queria sentir uma fracção do que sentia… Olhei para eles… Comunicavam-se com o olhar… A beleza que emanavam era tão forte, que era impossível desviar a atenção…
Olhei para os céus e novo relâmpago iluminou a morada divina… Fechei os olhos… De repente perdi os sentidos e cai… (Ainda hoje penso sobre o que aconteceu…)
Recuperei a consciência, mas não estava no chão… Estava em pé… Percorri o corpo com o olhar… Tinha braços, mãos e pernas fortes, uma postura segura e decidida. Era alto, estava vestido de cores escuras e era moreno… Olhei para o lado e lá estava ela… Ela… Os seus olhos castanhos eram ainda mais bonitos de perto… O seu rosto ostentava a dúvida e eu sabia o que ela pensava, o que ela sentia…
“O que tens?”, era a pergunta que pairava em si. Não respondi. O olhar de dúvida dela permaneceu por momentos, mas, subitamente, a compreensão espelhou-se nele.
Agarrou-me, puxou-me para si e olhou-me intensamente. Ela sabia da troca… Mas não se pareceu importar…. Estava decidida a mostrar-me o amor que eles sentiam um pelo outro.
Os lábios aproximaram-se tão lentamente, que me lembro de ver a chuva a cair mais devagar e o mundo a abrandar… Fechei os olhos e o mundo parou quando os nossos lábios se juntaram. O céu libertou faíscas, mais uma vez. O corpo em que estava, foi percorrido por um impulso eléctrico, a chuva estava a ferver com o calor libertado pela pele e eu senti-me, gigante, um deus na terra, nu e vivo! A força do sentimento e da descarga foi tal, que sai projectado, no momento em que o trovão troou e o tempo voltou a correr.
Abri os olhos… Estava em pé, meio escondido. Os dois amantes olhavam para mim e, de repente, voltaram a caminhar, como se nada tivesse acontecido…
O meu desejo realizara-se e eu sentia-me feliz!... Decidi procurar por aquela que, junto comigo, parasse o tempo, assim como acontecia com aqueles dois… Ou quem sabe?... Talvez, por motivos desconhecidos, ficasse de forma permanente no corpo dele… O que vier, virá…
Voltei para casa, para o calor, para o meu banco, de onde observo o mundo. A chuva continua a cair e, eu aguardo o momento em que serei um com o Universo, um contigo!
Dedicado a Mel
14 / I / 2010
Faz todo o sentido :)
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