Pessoa.na.mente
O eu fragmentado (Fernando Pessoa)
Sou um evadido
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah! Mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Porque não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.
Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!
Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!
Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.
Existência inconcreta (10/I/2006)
Talentos que Ele me deu
Não deixo de utilizar
O ser confuso sou eu
Este eu não consigo imaginar
Tento-me acalmar
Mas nada posso fazer
A minha existência não existe
Não me consigo compreender
Sinto a sabedoria a esvair-se
Sofre o coração
Escapa-se um grito de dor
É longa a elevação
É curta a continuação
Infinita a minha missão
A luz ofusca ao fundo
Do túnel da criação
Busco pela Verdade
Criatividade, moralidade
Acredito no nada
Preenchido de invisibilidade
Crivado constantemente
Por espinhos mortíferos
Veneno que produz
Pensamentos frutíferos
Que crescem, desenvolvem
Imortalizam meu ser
Vontade surge por instantes
Depressa se começa a perder
Dizem que “querer é poder”
Desejo isso concretizar
Quero completar as minhas tarefas
E no fim descansar
Infelizmente não tenho
6 dias para finalizar
24 sobre 7
Número certo para representar
Todos os desafios
A que sou submetido
Sinto-me abandonado
Assustado e perdido
Orgulho ferido
Sinónimo de incompleto, separado ou partido
Resumidamente
Dividido
O fingimento poético (Fernando Pessoa)
Dizem que finjo ou minto
Tudo o que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!
Imaginação ou Realidade (11/I/2007)
Ver, veja quem vê
Ouvir, oiça quem ouve
Sinta quem sente, sentir
Quem com rimas se comove
Falar e descrever
Sentimentos certos a ter
Percepção e adaptação
Do que me faz enfim escrever
Imaginação
Sugere inspiração imaginária
Realidade aponta
Perspectiva contrária
Adversária, adversa
Tento estabelecer conversa
Esterilização do corpo
Para a alma não ganhar doença
Mundana, profana
Que a ponha de cama
Em chama
Apercebo-me da voz que clama
Por mim
E que me quer acordar
Compasso de espera demonstra
Que estou prestes a ignorar
Mas
Continua essa voz a gritar
A dizer constantemente
Que constantemente tenho de lutar
O espelho dos pensamentos (Fernando Pessoa)
Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.
Que nojo de mim me fica
Ao olhar para o que faço!
Minha alma é lúcida e rica,
E eu sou um mar de sargaço
Um mar onde bóiam lentos
Fragmentos de um mar de além…
Vontades ou pensamentos?
Não o sei e sei-o bem.
Paradoxo indelével
(26/II/2007)
Poesia escrita há tempos
Concreta? Não sei dizer!
Desperto os sentimentos
Que na verdade não sei ter!
Vontade volta depressa
Será que chegou a ir?
Corro porque tenho pressa
E lentidão de atingir
Alcançar, conseguir
Inveja não tenho ou pretendo
Procuro pelo sustento
Que me ajudará a enfrentar e fugir
Compromisso ilusório
Plural pela unidade
Fidelidade à mocidade
Atendo no consultório
Envoltório é só corpo
Escapo se der para o torto
Se não viajo, eu transporto
A alma para outro porto
Projectos concluídos?...
Quem dera! Inacabados!
Pensamentos foragidos
Para o papel e não são escassos!
(01/III/2007)
Traços retratados
Escritos a lápis numa folha
Os lápis estão concentrados
Mas eu voo, mais ninguém voa
Mais ninguém está do meu lado
Limitação na ascensão
Voo na imaginação
De escada voo o vão, de escada
Não em vão
Pois na realidade só tenho corpo
Nem sei se tinha coragem
Para o dar pelos Homens, no Horto
(08/III/2007)
Falhar é mau presságio
Como a presença de um corvo
Falho constantemente
E nem por isso me comovo
Ou demovo
Para fazer o que está correcto
Gostava de poder ver ao longe
Ainda que estando de perto
No Presente que não evito
Por o estar a viver
Escondo-me dentro de mim
Mas deixo-me transparecer
Diálogo com Fernando Pessoa
10 / I / 2006 a 08 / III / 2007
Tão interessante! É fantástico como conseguiste interligar as coisas, parece mesmo um diálogo. Os poemas de Fernando Pessoa foram muito bem escolhidos! E os teus são deliciosos :) Adorei!
ResponderEliminarAqui há tempos estava a tentar responder ao teu comentário, mas não consegui... Até tinha arranjado uma palavra melhor que diálogo, porque na verdade eu estou a prolongar os raciocínios de Fernando Pessoa... Obrigado :p!
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